segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Até um dia...

... em que me volte a dar prazer escrever como dantes, até um dia em que volte a sentir que tenho algo para dizer e vontade de querer fazê-lo. Até porque esses dias chegam sempre mais cedo do que tarde. Até já.

terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Para reflectir...

O tema de hoje d' As Tardes da Júlia é "Acidentes Imprevistos".

Vou deixar-vos a reflectir enquanto vou ali abaixo ter um acidente e venho já.

segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Hoje na rua

Escolho uma rua para caminhar e atravesso-a a grande velocidade. Vejo duas senhoras do outro lado da rua à espera do autocarro e apanho no ar a frase que vale um dia. “A Figueira está muito mais desenvolvida do que Aveiro, expandiu-se para todos os lados e lá há sempre autocarros!” A não ter sido exactamente isso que a senhora disse garanto-vos que foi muito similar. É espantoso a ideia que as pessoas fazem do que não conhecem. Não haverá na Figueira uma única pessoa que diga isto, mas em Aveiro há e se calhar nem é só uma. Também já fui assim, também já pensei que a Figueira era a pior cidade do Mundo e que até Pombal seria mais espectacular. Na verdade confesso que continuo sem saber se é ou não mas sei, e isso é mais importante, que geralmente estamos errados no que toca a avaliar as cidades e o país em que vivemos e mais enganados estamos a fazer juízos de valor sobre realidades que não conhecemos. A Figueira não é, nem fazia sentido que fosse, melhor do que Aveiro como diz a senhora, da mesma maneira que teoricamente não poderá haver em Portugal nenhuma cidade mais forte do que Lisboa a partir do momento em que é a maior e a que tem mais habitantes. E mais ainda, que critérios usamos para dizer que as cidades são boas ou más? Um dos meus critérios favoritos era a qualidade das pessoas. Continuo a julgar que as pessoas são más na Figueira mas já tive o prazer de me aperceber que são más no país todo variando apenas nas respectivas proporcionalidades. Caí por terra o meu argumento. A última frase deste post fará cair o da senhora. Assim como todos os outros que não escrevo farão cair os seus respectivos argumentos. É que na Figueira nem sequer há assim tantos e tão bons autocarros, cara senhora.

Independentemente de tudo o resto

Há um ano que é novo. E embora o ano seja renovado, embora vão morrer pessoas que nunca tinham morrido e nascer pessoas que nunca tinham nascido há uma coisa que, estejamos nós em 2009, em 2008 ou em 1701 nunca muda: A guerra entre Israel e o Hamas. Há por isso relatos que dão conta que se um dia o Mundo acabar, lá, no fim do mundo, vai haver um pequeno espaço com meia dúzia de metros quadrados onde estarão em confronto Israelitas e Palestinianos. Nesse dia, no telejornal das 20h do fim do Mundo, aparecerá o General Loureiro dos Santos a explicar toda a dinâmica do conflito. E se o fim do Mundo acabar e com ele acabar o conflito entre Israel e a Palestina nasce de imediato um novo conflito entre o resto do Mundo e os Israelitas e Palestinianos, porque num mundo descartável e de mudança constante sabe bem ter algo que perdure no tempo e que seja em si uma referência para todos nós. Por isso matem-se que a terra é santa.

quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Ano Novo

Não contam comigo para grandes festas na passagem de ano. Sinceramente, abrir garrafas de espumante, comer passas, dar gritos de euforia e não sei mais o quê só porque se passou de 31/12 para 1/1 não me parece correcto. Trocar 31 dias e 12 meses por 1 dia e 1 mês não é um motivo de festa... é, isso sim, um mau negócio, mas eu não disse nada.

Ainda assim, Boas entradas a pés juntos.

2008 em revista!

Fiz uma breve revista a 2008, acontece que como ele não tinha nenhuma arma deixei-o passar.

terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Mensagem de Natal

... de sua excelência o dono deste espaço de Internet.

Portugueses, escrevo-vos do bar do CIFOP, um dos muitos departamentos da UA, a uma considerável distância do Natal. Sendo a minha vida a agradável correria que é e estando pouco certo de vir a ter nos próximos dias tempo suficiente para poder escrever esta missiva avanço, já hoje, aqui e agora, para a edificação do post sem o qual não há Natal, sejam portanto bem-vindos à mensagem de Natal do Objectivo 144 pela pessoa do seu autor.

Sendo assim, e sentindo nas costas o peso da tradição, sou obrigado a iniciar este texto relembrando os meus leitores que existe fome no Mundo. Agora que já estão lembrados vou falar-vos de mesas fartas. No Natal as mesas são fartas efectivamente, há bolos de bacalhau às dezenas, rissóis, croquetes, marisco, bebidas, bolos, tartes, doces, e tem anos em que até há pudim Maria Luísa da minha mãe, que é aquela coisa que fica para além do muito doce. Mas o Natal, o deste ano, o dos outros e muito provavelmente o próximo, é mais do que isso. E muito desse “mais do que isso” é também aquele momento de televisão em que, no dia 25, por entre filmes que já todos vimos, aparece a mensagem de Natal de D. José Policarpo. Faço uma pausa virtual para vos confessar que há um regulamento interno neste blog, escondido atrás de uma enorme estante com teias de aranha e dois livros, que impede que a mensagem de Natal seja publicada sem conter o nome do cardeal patriarca. Cumprido o regulamento é possível avançar. E avanço para dizer que de outros momentos se faz o Natal de todos nós. Um desses e que aprecio particularmente é igualmente no dia 25, quando faço a ronda pelos caixotes do lixo para apreciar a quantidade de papel e caixas atiradas para o chão. Essa é, efectivamente, uma das marcas de água do Natal. Luzes, as luzes também têm de ser faladas quando o assunto é Natal. Na minha zona fazem-se verdadeiros estendais luminosos nas janelas. Nas ruas metem-se iluminações e nos meus quartos não há candeeiros porque é feio. Nos Hospitais há sempre festa e a Philips dá televisões aos montes.
Por fim, antes de passar àquela parte mais tradicional da mensagem, não podia ir embora sem falar das prendas que vou receber. E abordo esse assunto para dizer duas coisas, primeiro dizer que na data em que escrevo este texto não tenho uma única prenda comprada e possuo apenas uma ideia. Segundo, quero dizer que as prendas que vou receber, sem excepção, são absolutamente espectaculares. Ainda assim gostaria de pedir a todos que junto com as prendas me dêem o talão da compra pois já não é a primeira vez, nem a segunda, que, por capricho, troco coisas absolutamente espectaculares por coisas que gosto mais.
E com isto me despeço, lembrando-vos a todos que durante a escrita desta mensagem morreram carradas de pessoas no planeta e lembrando-vos que a estupidez do mundo começa cada vez mais a vir ao de cima. A todos nós, que cá vivemos e que a teremos de a enfrentar diariamente, deixo apenas um conselho natalício, com toda a compaixão e fraternidade que caracteriza a época, não sejamos estúpidos.

FELIZ NATAL!!!


Nota: A fotografia que acompanha esta postagem não é relativa ao momento da escrita mas sim ao momento actual, no qual me encontro em Marte. Como o Cavaco Silva costuma ter uma bandeira e a Manuela Ferreira Leite tinha uma lareira pareceu-me, por bem, ter também uma.

segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Abafador de Cordas - A Grande Epopeia (ep. 4)

Olá pessoal! Encontro-me, tal como previsto, em Berlim. Hoje não tenciono maçar-vos muito pois não se tem passado nada de muito relevante comigo. A viagem de Londres até aqui correu bem e a minha estadia em Berlim estava a correr na perfeição não fosse o caso de não ter encontrado o muro, o famoso muro de Berlim.
Penso que vos tinha dito que ver o muro de Berlim era uma das muitas razões desta viagem, a ideia de haver um muro a separar alguma coisa sempre me fascinou desde os tempos em que eu e o Amílcar vivíamos lado a lado, separados pelo muro dos nossos quintais. Foi por isso que andei quase um dia inteiro à procura do muro. Corri a cidade toda e não vi muro nenhum, ainda não vos disse mas não sei uma única palavra em Alemão. Também já tinha decidido que mesmo que me lembre de alguma palavra solta não a vou dizer em voz alta, pelo sim, pelo não. Andei vários quilómetros entre metros e autocarros, confesso que um bocado perdido, até que, em desespero, perguntei a meio tom, em pleno autocarro, onde é que era o muro de Berlim. Foi precisamente aí que o motorista do autocarro, homem sereno e de cabelo escuro, se virou para trás e me respondeu, em bom português, o muro já caiu faz tempo, mas olha que até era por aqui. Fiquei espantado, não sabia que os Alemães dominavam tão bem o português. Agradeci e disse-lhe que não podia ser porque antes da viagem tinha visto num livro que o muro estava bem de pé. Disse-me que não e acenou lá com umas datas que não percebi. Não estava convencido. O homem continuou a falar para mim enquanto conduzia e até me perguntou se também era português. Aliás foi aí que percebi a jogada dele, estes gajos pensam que lá por sermos portugueses somos burros. Não me espanta nada que tenha aprendido português só para fazer este número. Fiquei lixado. Antes de sair do autocarro ainda o ouvi dizer qualquer coisa mas não lhe liguei, quando o autocarro arrancou ainda me virei para lhe fazer um manguito mas depois pensei, vou-me chatear? Não estou para isso. Começo a não gostar nada destes gajos, mania que são os maiores. O que me aborrece mais, caro leitor, é que se só tivesse visto informação sobre o muro no livro ainda vá, pronto, podia estar desactualizado, mas não, antes de vir lembro-me perfeitamente de ter visto uns gajos a atirar pedras por cima dum muro na televisão. Lembro-me até que usavam coisas na cabeça e davam tiros para o ar. Eu vi. E mais, agora percebo perfeitamente os lenços na cabeça, faz um frio aqui que não vos digo nada, para terem uma ideia, hoje saí do hotel com as calças do pijama por baixo das bermudas, visualmente reconheço que não estou muito bem mas ao menos estou quentinho.
Voltei ao hotel sem o muro, ainda perguntei ao tipo da recepção pelo muro, em português, na esperança que este também falasse, mas nada. Aparentemente não andou na mesma escola do outro. Meti-me no elevador sempre com as imagens dos tipos a atirar pedras junto ao muro na cabeça, caramba, como aquelas imagens me fazem lembrar o meu velho e bom amigo Amílcar, maluco como sempre, do lado de lá do muro a atirar pedras para o meu quintal e eu a responder, muitas vezes com as pedras que ele mandava. Uma vez, lembro-me de lhe ter partido a cabeça. Tinha imensa esperança de também poder agarrar numa pedra e atirar para o outro lado da cidade como nos bons velhos tempos! Não me agrada a ideia de abandonar Berlim sem ter vivido uma das mais importantes experiências da minha vida e talvez aquela que me podia trazer mais e melhores recordações da minha bela infância, em plena época natalícia. Não dá, paciência.
Não vos incomodo mais, vou passar o Natal a viajar para a minha próxima paragem: Kiev!
Quanto a vocês aproveito, porque já não vos volto a bater à porta antes da consoada, para vos desejar um Santo e Feliz Natal. Comam tudo o que eu não vou poder comer e não se esqueçam de dar uma saltada à missa do galo. Reconforta o espírito.

PS: Tenho a barba a roçar no chão! A Ti Rosinda enganou-se na bolsa e mandou-me a máquina antiga que já não funciona. Está aqui um problema.


Ass: Abafador de Cordas

sábado, 13 de Dezembro de 2008

Abafador de Cordas - A Grande Epopeia (ep. 3)

Bem-haja pessoal, saio hoje finalmente do hospital depois de alguns dias internado aqui, em Londres, onde ainda me encontro. Tudo se passou naquela rua onde me encontrava no último texto que enviei para o blog. Sem que ainda tenha percebido muito bem porquê, ou melhor, eu sei porquê, sei que nestas grandes cidades anda tudo louco é o que é, mas dizia eu, quando gritei black vieram dois garotos negros, que circulavam no meu passeio mas atrás de mim, e deram-me uma carga de pancada tal que estava a ver que morria aqui, em Londres, tão poucos dias depois de ter iniciado a minha viagem. Confesso que cargas de pancada destas só me lembram as da Ti Mariete aos porcos lá na minha aldeia. Mas nada disto é novidade para mim pois sabia perfeitamente que esta coisa de dar a volta ao mundo não ia ser fácil, mas tudo bem, foi só um grande susto e por agora já passou. A viagem continua.
Quando estava no hospital uma das coisas que me arrependi foi de ter mandado pela janela do comboio aquela faca de mato que me impediu de ter viajado de avião. Decidi por isso que antes de continuar a minha viagem, que é como quem diz, sair de Londres em direcção ao centro da Europa, iria comprar uma faca de mato. Portanto é exactamente isso que faço após sair do Hospital. Corro as ruas de Londres à procura de uma loja que me pareça vender facas e não encontro nada de jeito numa primeira vista. Felizmente que há sempre uma segunda vista e é precisamente aí que encontro uma loja de artigos de campismo, entro, é costume encontrar facas daquelas em lojas de campismo, pelo menos quando vou às compras a Espanha é assim. Dou duas voltas à loja e nem por isso encontro nada que me agrade, um empregado da loja dirige-se a mim e pergunta qualquer coisa que não consigo reproduzir, digo-lhe Boas tardes mas não me percebe. Volto a tentar, mas mais devagar, e continuo sem sorte. Dou um tempo, ignoro as boas tarde e pergunto-lhe com a maior calma do mundo se tem facas de mato, ri-se, não percebeu, penso, imagino como se dirá faca em inglês e deduzo que não ande longe de algo como facke, pergunto mas também não percebe, falo-lhe em mate e idem, começo a bufar, o rapaz começa a desandar, vira-me as costas, não acho piada e digo bem alto: Black. Volta-se bruscamente para trás, sorri e responde-me, Yes, esta percebi, e era exactamente isso que tencionava dizer-lhe a seguir por isso fiquei completamente desarmado. Saí de mansinho da loja sem mais nada a acrescentar e perante o olhar admirado do lojista. Aprendi com este episódio uma lição, aprendi que não há facas de mato em Londres e que por isso é impossível defendermo-nos de quem nos quer bater na rua sem razão nenhuma. É exactamente esse o motivo que me vai fazer ir embora não tarda.
Chove em Londres e eu estou de partida. Recolho no meu quarto, um dos mais baratos que encontrei, as minhas tralhas e preparo-me para seguir para a Alemanha, tenciono ir a Berlim visitar o muro, confesso que visitar o muro de Berlim é, a par com as pirâmides de gelo do Egipto, um dos grandes motivos desta viagem. Procuro um meio de transporte para a cidade Alemã e é nisso que vejo finalmente o grande relógio, é efectivamente belo, tiro umas fotografias e quase morro novamente a atravessar uma passadeira. Tinham-me avisado que aqui os carros andam ao contrário mas tardo em me habituar.
Bom, encontro finalmente maneira de sair daqui e é exactamente isso que vou fazer, apanho o metro que me levará à gare e vou seguir viagem até, pelo menos é isto que levo na ideia, Berlim, como já vos tinha dito. Na próxima semana dou-vos mais notícias, numa altura em que se começa a aproximar o Natal e eu ainda não sei onde o irei passar. Ate lá!


Ass: Abafador de Cordas.

domingo, 7 de Dezembro de 2008

Abafador de Cordas - A Grande Epopeia (ep. 2)

Estou em Londres, mas por agora não vos digo onde, prefiro recuar algumas horas para ligar esta crónica à outra e perceberem como aqui vim parar. Sendo assim, encontro-me à porta do aeroporto da Portela, de costas para ele. Fui impedido de viajar por causa de uma faca do mato que transportava dentro da mochila. Começo a achar que o senhor das barbas tem alguma razão quando diz o que diz, não compreendo, ninguém me vende a ideia de não poder levar uma faca de mato na bagagem. Tinha bilhete para Casablanca, ia para Marrocos, não sabia ainda se ia percorrer o Norte de África saindo do Continente através da fronteira do Egipto com o Médio Oriente ou se seguia África abaixo até à África do Sul. Por agora decido que vá para onde for não vou de avião, pelo menos nesta fase da viagem. Sei que posso entrar em África por barco no Sul de Espanha mas a minha decisão é outra, dirijo-me à Estação do Oriente e compro o bilhete para o comboio Internacional que me levará até à fronteira com Paris, depois seguirei até Londres. Pago um bilhete que não é barato e passeio no Parque das Nações até que chegue a hora da partida. E chega, o Internacional que me conduz até Hendaye arranca para uma longa viagem de mais de 14 horas pela península ibérica. É já para cima de Fátima que reparo que estou a fazer exactamente o mesmo percurso que fiz para Lisboa, vou, por isso, voltar a passar a escassos metros de minha casa. A ideia de andar a perder tempo irrita-me, irrita-me ao ponto de abrir a janela e atirar janela fora a faca do mato que me impediu de viajar de avião, pronto, esta já não aborrece mais. Pego no telefone e ligo para o café da aldeia. Estou, Ti Manel? Sim, Olhe sou eu, podia-me chamar a Ti Rosinda, É para já. Alguns minutos a espera até que finalmente soou do outro lado a voz antiga da Ti Rosinda. Sim, quem me fala? Estou, Ti, sou eu o Abafador de Cordas, Ah meu filho, como tu estás? Estou bem, mas ouça, eu vou agora no comboio Internacional para cima mas esqueci-me da minha máquina de barbear, o comboio não pára aí no nosso apeadeiro mas se não fosse pedir muito à Ti, a Ti ia a minha casa, pegava na maleta da máquina e quando o comboio fosse a passar eu abria a janela e a Ti atirava-ma, pode ser? Pode meu filho. Sabe a hora a que o comboio passa? Sei que costumo vê-lo. Então estamos combinados.
Quando desliguei o telefone era um homem reconfortado, ia finalmente ter a minha máquina de barbear sem a qual acabaria, mais tarde ou mais cedo por parecer o já nosso conhecido homem das barbas. À medida que me aproximava da zona do encontro com a Ti Rosinda sentia o coração a bater mais depressa, quando finalmente a composição deu a curva da minha aldeia abri a janela, espertei e vi ao fundo a Ti Rosinda, lado a lado com a linha, mini-saia até aos tornozelos preta, lenço preto sobre o cabelo branco de uma pele queimada pelo sol e atravessada pela idade. Acenei, ela viu-me, o comboio ainda estava a uns bons cinco metros da Ti quando o saco da máquina voou na direcção do comboio, quando estava cara a cara com a anciã tinha o saco na mão, em cheio, não falhou. Acenei novamente, fechei a janela e sentei-me, toda a carruagem olhava para mim com se fosse um monstro, é incrível, basta dois dias sem fazer a barba e as pessoas logo reparam.
O resto da viagem até França levei a dormir. Não contemplei Espanha na minha viagem porque já fui várias vezes a Ciudad Rodrigo, que é lá perto da minha aldeia, e por isso Espanha já conheço. Quero ir a Londres ver aquele relógio alto e tudo o que por lá há. Para isso tenho de apanhar o TGV em França e viajar através do canal da mancha, por sorte encontro um emigrante português que me orienta o caminho, era o António, um gajo porreiro. O António é o primeiro gajo porreiro que encontro nesta aventura.
Estou finalmente em Londres!
Passei pelas ruas da capital britânica e sinto uma enorme desilusão, as casa parecem-me todas iguais, os carros andam em sentido contrário e vejo-me em grandes dificuldades para atravessar a estrada, confesso que nisso também não sou muito bom porque na minha aldeia só há dois carros um tractor e uma vintena de carrinhos de mão e já ia sendo atropelado por alguns deles por mais do que uma vez. Talvez se soubesse falar inglês isto fosse mais fácil mas a verdade é que, para primeiras impressões, não gosto nada disto.
Vagueio pelas ruas devagar e sinto, aos poucos, começar a surgir-me o inglês nas veias, a primeira palavra, Yes, lembro-me de ouvir dizer isto a um rapaz que é neto dum vizinho meu que costuma lá ir passar férias, digo Yes às pessoas com quem me cruzo mas ninguém me responde, são sisudos, penso na curiosidade de estar ainda há poucas horas trancado numa pequena aldeia do interior e agora estar aqui, na grande metrópole, em Londres, anima-me a ideia de ser agora um viajante, lembro do submarino yellow, do white, do blue, do outro lado da rua viaja um rapaz de cor e não resisto, estou efusivo, já sei falar inglês, solto para o outro lado da street, diz a placa, Black!.

Ass: Abafador de Cordas

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