Estou em Londres, mas por agora não vos digo onde, prefiro recuar algumas horas para ligar esta crónica à outra e perceberem como aqui vim parar. Sendo assim, encontro-me à porta do aeroporto da Portela, de costas para ele. Fui impedido de viajar por causa de uma faca do mato que transportava dentro da mochila. Começo a achar que o senhor das barbas tem alguma razão quando diz o que diz, não compreendo, ninguém me vende a ideia de não poder levar uma faca de mato na bagagem. Tinha bilhete para Casablanca, ia para Marrocos, não sabia ainda se ia percorrer o Norte de África saindo do Continente através da fronteira do Egipto com o Médio Oriente ou se seguia África abaixo até à África do Sul. Por agora decido que vá para onde for não vou de avião, pelo menos nesta fase da viagem. Sei que posso entrar em África por barco no Sul de Espanha mas a minha decisão é outra, dirijo-me à Estação do Oriente e compro o bilhete para o comboio Internacional que me levará até à fronteira com Paris, depois seguirei até Londres. Pago um bilhete que não é barato e passeio no Parque das Nações até que chegue a hora da partida. E chega, o Internacional que me conduz até Hendaye arranca para uma longa viagem de mais de 14 horas pela península ibérica. É já para cima de Fátima que reparo que estou a fazer exactamente o mesmo percurso que fiz para Lisboa, vou, por isso, voltar a passar a escassos metros de minha casa. A ideia de andar a perder tempo irrita-me, irrita-me ao ponto de abrir a janela e atirar janela fora a faca do mato que me impediu de viajar de avião, pronto, esta já não aborrece mais. Pego no telefone e ligo para o café da aldeia. Estou, Ti Manel? Sim, Olhe sou eu, podia-me chamar a Ti Rosinda, É para já. Alguns minutos a espera até que finalmente soou do outro lado a voz antiga da Ti Rosinda. Sim, quem me fala? Estou, Ti, sou eu o Abafador de Cordas, Ah meu filho, como tu estás? Estou bem, mas ouça, eu vou agora no comboio Internacional para cima mas esqueci-me da minha máquina de barbear, o comboio não pára aí no nosso apeadeiro mas se não fosse pedir muito à Ti, a Ti ia a minha casa, pegava na maleta da máquina e quando o comboio fosse a passar eu abria a janela e a Ti atirava-ma, pode ser? Pode meu filho. Sabe a hora a que o comboio passa? Sei que costumo vê-lo. Então estamos combinados.
Quando desliguei o telefone era um homem reconfortado, ia finalmente ter a minha máquina de barbear sem a qual acabaria, mais tarde ou mais cedo por parecer o já nosso conhecido homem das barbas. À medida que me aproximava da zona do encontro com a Ti Rosinda sentia o coração a bater mais depressa, quando finalmente a composição deu a curva da minha aldeia abri a janela, espertei e vi ao fundo a Ti Rosinda, lado a lado com a linha, mini-saia até aos tornozelos preta, lenço preto sobre o cabelo branco de uma pele queimada pelo sol e atravessada pela idade. Acenei, ela viu-me, o comboio ainda estava a uns bons cinco metros da Ti quando o saco da máquina voou na direcção do comboio, quando estava cara a cara com a anciã tinha o saco na mão, em cheio, não falhou. Acenei novamente, fechei a janela e sentei-me, toda a carruagem olhava para mim com se fosse um monstro, é incrível, basta dois dias sem fazer a barba e as pessoas logo reparam.
O resto da viagem até França levei a dormir. Não contemplei Espanha na minha viagem porque já fui várias vezes a Ciudad Rodrigo, que é lá perto da minha aldeia, e por isso Espanha já conheço. Quero ir a Londres ver aquele relógio alto e tudo o que por lá há. Para isso tenho de apanhar o TGV em França e viajar através do canal da mancha, por sorte encontro um emigrante português que me orienta o caminho, era o António, um gajo porreiro. O António é o primeiro gajo porreiro que encontro nesta aventura.
Estou finalmente em Londres!
Passei pelas ruas da capital britânica e sinto uma enorme desilusão, as casa parecem-me todas iguais, os carros andam em sentido contrário e vejo-me em grandes dificuldades para atravessar a estrada, confesso que nisso também não sou muito bom porque na minha aldeia só há dois carros um tractor e uma vintena de carrinhos de mão e já ia sendo atropelado por alguns deles por mais do que uma vez. Talvez se soubesse falar inglês isto fosse mais fácil mas a verdade é que, para primeiras impressões, não gosto nada disto.
Vagueio pelas ruas devagar e sinto, aos poucos, começar a surgir-me o inglês nas veias, a primeira palavra, Yes, lembro-me de ouvir dizer isto a um rapaz que é neto dum vizinho meu que costuma lá ir passar férias, digo Yes às pessoas com quem me cruzo mas ninguém me responde, são sisudos, penso na curiosidade de estar ainda há poucas horas trancado numa pequena aldeia do interior e agora estar aqui, na grande metrópole, em Londres, anima-me a ideia de ser agora um viajante, lembro do submarino yellow, do white, do blue, do outro lado da rua viaja um rapaz de cor e não resisto, estou efusivo, já sei falar inglês, solto para o outro lado da street, diz a placa, Black!.
Ass: Abafador de Cordas